Uma Cilada para Roger Rabbit (1988)

Animação Híbrida

A animação híbria é um formato de animação que mistura duas ou mais técnicas distintas, como live action e desenho animado ou 2D e 3D.

A seguinte dissertação foi retirada do meu Trabalho de Conclusão de Curso. Você pode ler ele por completo aqui.

Origem

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Alice Comedies (1923)

Segundo Faria, a evolução tecnológica no campo da animação tem revolucionado tanto a produção dessas obras quanto a experiência do público nos últimos anos.[1] Atualmente, a fusão de diferentes mídias, como animação 2D, 3D, stop motion e live action, é uma tendência de mercado em relação à animação tradicional. Um conceito que vem ganhando atenção especial é o da animação híbrida, que envolve a integração de múltiplas técnicas animadas em uma única obra. É um fenômeno perceptível principalmente em obras a partir da década de 1980 até os dias atuais que se deve à evolução tecnológica nessa área.

De acordo com Tina O'Hailey em seu livro ‘Hybrid Animation: Integrating 2d and 3d Assets’ (2010), a animação híbrida pode ser definida como a fusão entre animação bidimensional (2D) e tridimensional (3D).[2] No entanto, essa definição acaba se mostrando um tanto limitada, porque ignora outras formas de hibridização que incorporam técnicas como o stop motion e o live action. Produções como ‘Uma Cilada para Roger Rabbit’ (1988), ‘Space Jam’ (1996) e ‘O Incrível Mundo de Gumball’ (2011-2019) mostram que a animação híbrida pode ser muito mais diversa do que a simples combinação de 2D e 3D, utilizando uma mistura de técnicas que transcendem essa definição inicial.

Historicamente, o uso da hibridização entre live-action e animação pode ser traçado até o filme ‘The Enchanted Drawing’ (1900), dirigido por J. Stuart Blackton, que combina filmagens reais com desenhos animados e mostra que a técnica existe desde os primórdios da animação. Walt Disney também explorou essa combinação no início dos anos 1920 com a série ‘Alice Comedies’ (1923), onde personagens live action interagem com cenários e personagens animados. Esses primeiros exemplos estabelecem que a ideia de mesclar diferentes técnicas de animação é quase tão antiga quanto a própria história da animação.

Nos anos 1980, a introdução de CGI (Computer Generated Imagery) abriu novas possibilidades para a hibridização e possibilitou a integração mais fluida entre animação 2D e 2D, com experimentos como o teste de John Lasseter para ‘Where the Wild Things Are’ (1983), baseado no livro infantil ‘Onde Vivem os Monstros’ (que, posteriormente, recebeu uma adaptação live action), sendo um bom exemplo de uma dessas tentativas.

Tteste de ‘Where the Wild Things Are’ (1983)

Animação híbrida na contemporaneidade

Na animação moderna, especialmente em animes e em outras séries animadas, a fusão dos dois estilos tornou-se uma prática comum e que muitas vezes acaba se tornando imperceptível ao espectador comum. O filme ‘Homem-Aranha no Aranhaverso’ (2018) e a sua sequência ‘Homem-Aranha: Através do Aranhaverso’ (2023) são exemplos contemporâneos que exploram essa combinação de uma forma nunca vista até então, misturando técnicas 2D e 3D para criar uma estética visual única, trazendo o estilo e a atmosfera dos quadrinhos para um tipo de mídia diferente.

‘Klaus’ (2019), é outro exemplo de filme que mistura elementos 2D e 3D. O longa segue o mesmo percurso de produção de uma animação 2D digital tradicional, onde inicialmente se fazem os rascunhos, em seguida há a limpeza das linhas, a aplicação de cores e, por fim, trabalha-se com a luz e as texturas, um passo que, normalmente, estaria reservado à animação 3D.

A produção também se destacou pelo desenvolvimento do software KlaS (Klaus Light and Shadow), uma ferramenta criada exclusivamente para ser usada no desenvolvimento do filme. Com a ajuda de inteligência artificial, o programa permite a aplicação de luz e sombra tridimensionais sobre os personagens bidimensionais, criando uma estética tridimensional sem abandonar as raízes da animação 2D. Um outro software foi utilizado para a aplicação das texturas, de forma semelhante à descrita. O processo, no entanto, não é isento de erros e precisa que artistas confirmem e ajustem manualmente os detalhes feitos pela ferramenta. Ainda assim, o Klas acaba sendo uma ferramenta muito valiosa por poupar bastante tempo da equipe de produção, que, assim, consegue se dedicar mais ao processo criativo.

Os exemplos citados mostram que a animação híbrida está em constante evolução e não só tem sido, como continua sendo, um terreno fértil para experimentação, com os avanços tecnológicos permitindo maior liberdade artística e uma infinidade de possibilidades criativas para animadores.

Hibridização bem-sucedida

Segundo O’Hailey, o sucesso na hibridização pode ser medido pela invisibilidade do trabalho técnico envolvido.[2:1] Isso significa que a combinação de diferentes meios deve ser tão harmoniosa ao ponto em que o espectador nem sequer perceba as transições, permitindo que a narrativa flua sem interrupções visuais ou sem que haja uma quebra de imersão.

Olhando através de todos eles, pode-se descobrir que existe uma medida que determina se a combinação 2D/3D foi bem-sucedida ou não. Como todos os especialistas em entretenimento visual que trabalham arduamente sabem (…), é bem-sucedido se o nosso trabalho for invisível. Se o nosso estilo visual criar uma imagem homogénea que transmita a emoção da história, se o nosso registo for bem executado e os pontos de contacto não se abanarem, (…), se o nosso trabalho não for visível e se a história for contada sem interrupção, então os nossos esforços têm sido bem-sucedidos.

Tina O’Hailey, 2010[2:2]


  1. FARIA, Francisca Lowndes de Abreu Teixeira de. O impacto da animação híbrida no futuro da animação. 2022. – IADE-U: [s.n.]. ↩︎

  2. O’HAILEY, Tina. Hybrid Animation: Integrating 2D and 3D Assets. Elsevier, 2010. ↩︎ ↩︎ ↩︎

TER 03.02.2026 10:45 BRT SEG 09.02.2026 02:57 BRT